Cérebro e Música: identificação da localização e natureza dos sons

Quase toda nossa experiência auditiva volta-se para identificar as coisas: uma torneira pingando, uma palavra falada, o gorjeio de um clarinete. Estamos muito mais interessados na natureza dos sons do que no lugar de onde vêm. Mentes como a nossa mapeiam o mundo de forma tão efetiva que pouco nos preocupamos com a localização dos sons. Já sabemos perfeitamente onde está a torneira. Em geral, só em cenários como ruas movimentadas, ou becos escuros, nos tornamos conscientes da localização de um som e talvez nos esforcemos para estabelecer exatamente sua posição. Mas a prioridade da evolução foi a descoberta do local de onde vêm os sons, e não daquilo que são. Não adianta muito distinguir o som que a presa ou o predador fazem quando não se sabe por qual caminho se aproximar, ou escapar. A localização é tão importante que nossos ouvidos a efetuam de meia dúzia de maneiras. Na verdade, localizar é a preocupação básica das partes mais primitivas do cérebro auditivo.

Em nossa experiência da música, também é importante poder localizar. Numa sala de concerto, os ecos chegam aos nossos ouvidos vindos de todas as direções e localizamos cada uma delas. Os sons que chegam diretamente do palco são, em geral, os mais altos, então tendemos a experimentar a música como se viesse desse ponto. Mas uma infinidade de ecos, alguns fortes mas, na maioria, sutis demais para que se possa distingui-los, transformam em abraço o que seria, de outra forma, uma paulada de som. Cercando-nos, a música é transformada num meio ambiente que habitamos, um mundo onde estamos à sua mercê. Se levarmos um desempenho para o lado de fora, de modo a não haver parede alguma para criar ecos, a música é reduzida a uma presença, entre muitas outras, no mundo, em vez de um mundo em si.

Fonte: Livro “Música, Cérebro e Êxtase”, de Robert Jourdain.

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